(texto escrito pela professora Mônica Arouca em homenagem ao Dia das Mães)
Somos mães apenas por que somos mulheres. E assistimos, todas nós, à história dos tempos um pouco como crianças ingênuas diante do que pode a ciência; um pouco como meninas encantadas perto do que pode a natureza num corpo único.
Assistimos aliviadas ou indignadas ao aparecimento do anticoncepcional. Olhamos cansadas e fortes as discussões sobre abortos. Podemos escolher o sexo dos nossos filhos. Planejamos quantos deles virão.
Perdemos filhos, ganhamos netos, buscamos reencontrá-los. Erguemos suas caras de plástico nas praças de Mayo e da Sé. Reinventamos a fé todos os dias.
Deixamos com a babá, trancamos no barraco, acompanhamos passos alheios pela intuição. Silenciamos a noite por eles e falando deles dizemos de nós.
Alugamos barriga, vendemos óvulos. Nosso coração, se visitado, deve ter um suspiro, um sussurro guardado. Vimos muito nesses séculos. Vimos demais.
Mas hoje, neste domingo, esperaremos nossas homenagens. E eles (os filhos) haverão de encontrar a mesa posta e a toalha branca. As frutas, poucas, ajeitadas sobre um prato. Encontrarão um pão de ontem, único, dividido universal e igualmente para seis bocas. Encontrarão, talvez, apenas a mãe. E, reunidos, o que é bastante, haveremos, então, de descontar espaço, tempo, ciência e milagres e ficaremos a celebrar o mistério. O imponderável.
Sim, seremos identificadas e também reencontraremos nós mesmas, enfim. Haveremos de nos reconhecer nas crianças que parimos silenciosa e inexplicavelmente. As mãos, os olhos, tudo perfeito como um segredo. Aprenderemos que o invisível é nada quando, de dentro de nós, um ser humano nasce feito, concreto, palpável, grávido de sentidos. Saberemos em cada célula e em cada veia que o filho, esse amor providenciado e providente, é a âncora que faltava para nos prender à vida. Entenderemos essa linguagem e sem medo avançaremos como criaturas aladas, para sempre indissolúveis. Como há milhares de anos. Ou como sempre.
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